quarta-feira, setembro 13, 2006

Lutero e as Indulgências

Lutero e as Indulgências


Não é incomum ler em livros de História ou ouvir de professores, mesmo (ou principalmente) nas universidades, que a Igreja, no tempo de Lutero, vendia indulgências, vendia a absolvição, vendia o céu e praticava a simonia (venda de sacramentos).

Foi justamente essa a afirmação que eu ouvi faz alguns dias de um Professor de Direito da UnB. A pessoa que faz tal afirmação está em uma das duas situações: ou é ignorante e nunca leu o mais singelo compêndio de doutrina católica, mas simplesmente repete os slogans contidos nos péssimos manuais de história usados no Brasil; ou está de má-fé, com simples vontade de atacar a Santa Igreja. Vejamos, então, o que significam de fato as indulgências e o que se passava no tempo de Lutero.

Um Pouco da Doutrina Católica

Há três fatores a serem considerados em todos os pecados mortais: primeiro, a culpa; segundo, a sua punição eterna; terceiro, a punição temporal. Os dois primeiros (que levam a pessoa ao inferno) são perdoados pelo Sacramento do Batismo e pelo Sacramento da Confissão (quando a pessoa volta a pecar mortalmente depois do Batismo). O terceiro fator – punição temporal – é expiado pelos nossos sofrimentos e penitências aqui na terra ou no purgatório, ou pela remissão por meio das indulgências. Está claro, então, que a indulgência não tem nada que ver com absolvição nem com comprar o céu ou ir para o inferno. A pessoa obtém o perdão da culpa e da punição eterna somente quando recorre ao Sacramento da Penitência (que para sua validade requer a contrição pelos pecados cometidos, firme propósito de emenda, acusação dos pecados ao Sacerdote e a absolvição dada pelo mesmo, in persona christi). Além disso, a indulgência também não perdoa nem os pecados veniais, nem, obviamente, é permissão para que se cometam pecados futuramente.

A indulgência pressupõe que a pessoa esteja em estado de graça, quer dizer, que esteja absolvida de seus pecados mortais. Pressupõe, em outras palavras, a própria confissão, que perdoa a culpa e a punição eterna do pecado mortal. Daqui se conclui que a indulgência não é Sacramento e, portanto, não há que se falar em simonia, isto é, venda de sacramento.

A pessoa estando já arrependida de seus pecados e tendo-os confessado ao Sacerdote pode diminuir a sua pena temporal suportando com paciência os sofrimentos, fazendo penitências e praticando boas obras. É justamente aqui que entram as Indulgências. É a remissão da pena temporal pela prática de boas obras. Como já foi dito, então, a remissão dessa pena pressupõe a absolvição sacramental, que perdoou a culpa e a punição eterna. Somente a partir daí se pode pensar na remissão da pena temporal. Utilizemos uma comparação: uma criança, desobedecendo a mãe, joga futebol dentro de casa e quebra um vaso. Depois, arrependido pede perdão para a mãe. Ela concede o perdão, mas fala para o filho ao menos juntar os cacos do vaso. Ora, a mãe não aplicou um castigo mais severo e que seria justo porque o filho se arrependeu, mas pediu apenas para o filho juntar os cacos, a fim de que o filho não pense que basta desobedecer e depois se “arrepender”, além de se constituir igualmente numa satisfação pela ofensa cometida. Essa pena mais leve trata-se também, então, de uma educação, a fim de não incentivar a desobediência. Assim funciona com o pecado mortal. A pessoa que peca, arrependida e tendo se confessada deve ainda uma satisfação – que deve ser feita em vida ou no purgatório - a glória de Deus ofendida por sua desobediência. Essa satisfação serve também como educação das péssimas conseqüências que advêm do pecado.

Visto que não se trata de comprar e vender sacramentos, vejamos se de fato se trata de comprar e vender alguma coisa. Ora, a Indulgência é obtida quando, presentes os pressupostos citados, o fiel pratica uma boa obra prescrita pela Igreja. Essa boa obra pode ser, por exemplo, uma contribuição pecuniária, conforme a capacidade de cada um, para a construção de uma igreja ou capela. Obviamente, aqueles que não têm condição de contribuir com dinheiro contribuem (e que contribuição!) com suas orações e jejuns. No tempo de Lutero, estava sendo construída a atual Basílica de São Pedro e uma das boas obras prescritas pelo Papa para obter indulgência era contribuir para a edificação da mais importante igreja do Catolicismo. E mesmo nesse caso quem não tivesse dinheiro poderia contribuir com as orações e os jejuns. É isso o que diz o documento do Arcebispo Alberto de Brandenburgo “aqueles que não têm dinheiro devem suprir com suas orações e jejuns, já que o Reino dos Céus deve ser aberto tanto aos pobres quanto aos ricos.”

Não se trata, então, de comprar e vender nada, mas apenas de dar uma contribuição para a construção de uma igreja. Não há dúvidas de que poderia haver Padres que pregavam que as indulgências levariam para o céu, sem a necessidade de arrependimento e da confissão, enganando os fiéis. Eram, todavia, maus Padres que iludiam os fiéis e contrários ao que ensina a Santa Igreja.

Motivo real da revolta de Lutero

O verdadeiro motivo da revolta de Lutero com relação às indulgências deve-se à sua teologia do sola fide, isto é, a salvação somente pela fé. Diz Lutero que a pessoa se salva apenas pela fé, independentemente das obras.

A origem dessa teologia deturpada surge – numa análise superficial - da personalidade um tanto quanto perturbada de Lutero. Inicialmente, ele se revela extremamente escrupuloso, vendo pecado onde não existe, o que termina por levá-lo ao desespero, em que a pessoa considera que já está condenada independentemente do que fizer. O desesperado considera as boas obras inúteis. Na verdade, Lutero, desprezando a misericórdia Divina, considerava não apenas inúteis as boas obras, tinha-as como impossíveis de serem realizadas. De fato, sozinhos não somos capazes de praticar boas obras, mas unidos aos méritos de Nosso Senhor e por sua bondade infinita podemos praticá-las, sim. Não podendo permanecer nessa situação de desespero, em que ele já se considerava condenado, Lutero cai no erro oposto: o erro da presunção, em que não há mais justiça divina, apenas misericórdia. Isso quer dizer que independentemente do que ele faça, ele estará salvo. Mais uma vez, Lutero nega a existência das boas obras. Para ele, então, o homem, apesar de somente cometer pecados é salvo pela fé. Isso é uma afronta à justiça divina! As duas doutrinas de Lutero são totalmente distorcidas – a primeira anula a misericórdia e a segunda anula a justiça, sendo que ambas, na doutrina correta, estão sempre juntas. As duas doutrinas erradas de Lutero têm a mesma conseqüência: mantêm o homem no pecado, na prática das más obras, como se não houvesse alternativa. É também uma negação tremenda do livre arbítrio. Daí, então, Lutero passar a defender que basta a fé para se salvar e dizer: “Crê firmemente e peca muitas vezes.”
Lutero era totalmente contra qualquer boa obra, e dizia que o homem é incapaz de fazer uma boa obra (o que é um absurdo completo e uma comodidade bem grande!) e por isso o seu ataque às indulgências, que têm por essência a prática de uma boa obra.

Lutero é tido como modelo moral de reformador de uma Igreja totalmente corrompida. Por um lado, a corrupção era de alguns membros da Igreja e não de Igreja em si (o que jamais ocorrerá) e, por outro, Lutero sempre teve um comportamento moral bastante ruim. Antes de entrar no Monastério, por exemplo, ele fez uma festa de despedida com “bastante vinho e mulheres.” Depois abandonou todos os votos que fez, vivia na mesma casa com algumas tantas ex-freiras, casou com uma delas, Catarina, e depois a abandonou. Além disso, Lutero proferia blasfêmias constantemente. Para provar isso, basta ler as obras do........ próprio Lutero. Lutero nunca foi reformador! Reformador é São João da Cruz, Santa Teresa de Ávila, São Francisco. O reformador volta para o que diz e prescreve a Igreja, jamais se revolta contra ela. Lutero foi um deformador. Para mais detalhes, ver o excelente artigo de Marcos Libório, que é uma pequena biografia de Lutero e expõe a sua doutrina insana: Lutero, o filme: uma boa e grossa mentira