sexta-feira, abril 28, 2006

Il Manifesto de un antipapa


Tem repercutido bastante uma entrevista em formato de diálogo entre o Cardeal Martini e o médico Ignazio Marino, publicada originalmente na revista italiana L'Espresso. Quando uma notícia sobre a Igreja repercute muito na mídia global, alguma coisa errada deve haver. Dessa vez não foi diferente.

Antes de tudo, vejamos quem são os personagens. O Cardeal Martini era o Arcebispo de Milão e atualmente está em Jerusalém, fazendo estudos bíblicos. O Cardeal Martini é progressista até a medula, merecendo destaque juntamente com o Cardeal Kasper e o Cardeal Daneels nesse quesito. Considerado Papabile no último conclave. O Doutor Ignazio é um médico da esquerda italiana que se diz católico ( ver Rorate Caeli). Nesse mesmo site, faz-se a relação existente entre esse diálogo e a vitória da coalizão centro-esquerda de Romano Prodi na Itália.

O diálogo, na verdade, seria uma cobrança da esquerda italiana - apoiada pelo progressista Cardeal Martini - objetivando a mudança da posição do Vaticano em algumas questões relacionadas à vida, ao aborto e à Aids, a fim de poder implementar a sua agenda sem maiores dificuldades. Além disso, quer dar a impressão aos católicos de que eles podem discordar dos ensinamentos da Igreja, fomentando, assim, uma espécie de anti-clericalismo. Do diálogo se destacam as afirmações do Cardeal de que a vida não começa imediatamente com a fecundação e que usar camisinha pode ser um mal menor quando um dos casados tem Aids.

A primeira afirmação qualquer um percebe que é absurda. Não faz muito tempo que a Pontifícia Academia para a Vida declarou em um documento: “il momento che segna l’inizio dell’esistenza di un nuovo essere umano è rappresentato dalla penetrazione dello spermatozoo nell’ovocita”. Há vida desde o momento da concepção, portanto.

O caso da camisinha é mais complexo, mas se resolve com um princípio muito simples: não se pode pecar para atingir um fim bom. O fim objetivado pelo Cardeal - a relação entre o casal - não pode ser atingido pela violação da lei natural, o que ocorre com o uso da camisinha, já que a relação se torna não unitiva. Lembrando que são duas as finalidades do casamento: a primeira é a procriativa, indispensável; a segunda, sempre conectada à primeira, é a unitiva. A camisinha impede que o ato matrimonial seja unitivo, isto é, torna-o anti-natural. Dessa forma, afirmar que é lícito usar camisinha quando a intenção não é a contracepção (mas a prevenção da doença) não tem fundamento. Não tem fundamento porque viola a lei natural, a finalidade unitiva. O ato matrimonial perde o seu sentido. Existem outros argumentos também, mas esse é o que destrói qualquer pretensão dos progressistas.

O Vaticanista Sandro Magister escreveu um artigo dizendo que muitas autoridades do Vaticano consideraram as palavras de Martini como "Manifesto de um anti-papa". Os lobos são muitos e uivam, quando percebem que estão sendo atacados. Alguns clérigos, infelizmente, apoiaram o Cardeal Martini. Rezemos pelo Papa para que, como Bom Pastor, não tema os lobos e defenda as suas ovelhas.

Até correram rumores de que um documento estaria para ser elaborado no Vaticano sobre o assunto e mudando a posição da Igreja. Pode ser que esteja mesmo, mas outras autoridades da Cúria Romana já garantiram que nada mudou na doutrina da Santa Sé. Já hoje o Papa publicou suas intenções para o mês de maio: que as instituições públicas dos países de missão defendam a vida desde a concepção até o seu fim natural (Zenit - francês). Será que a mídia vai publicar isso? Duvido é-o-dó.